Uma criança se oculta atrás da cortina, o corpo imóvel contém a respiração. Há uma tensão doce nesse desaparecimento, uma alegria silenciosa em poder sumir. Do outro lado, alguém procura – e é nesse intervalo entre o esconder e o ser encontrado que algo essencial se tece. O instante de descoberta – o «achei!» – faz o riso explodir: o mundo voltou a ter contorno, o olhar reencontra o olhar. Nesse pequeno ritual, repete-se um movimento de ir e vir, perder e reencontrar, afastar-se e retornar, morrer um pouco e ressurgir no olhar do outro.
Freud (1920) descreveu esse mesmo gesto no jogo do fort-da. A criança lança o carretel e o traz de volta, simbolizando a presença e a ausência da mãe. O que antes era sofrimento se transforma em criação: o brincar permite que a dor da separação se converta em gesto, e que o desamparo encontre uma forma de ser habitado.
Winnicott (1971), mais tarde, diz que «é uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser encontrado». O esconder-se é necessário – trata-se de experimentar o Eu como distinto, capaz de manter um espaço próprio. Mas a experiência de ser encontrado é igualmente vital, pois configura a base da capacidade de estar sozinho, em essência, estar-sozinho-com.
Na análise, temos algo análogo. O paciente chega em seus esconderijos: palavras que disfarçam, silêncios que falam, risos que encobrem dores, sintomas que se oferecem como véus. O analista procura, mas com delicadeza; sua função não é arrancar o sujeito do esconderijo, mas estar ali, à espera, sustentando a possibilidade de ser encontrado. É como aquele espaço «entre» as cortinas, onde desaparecer não significa ser aniquilado. É também um jogo feito de idas e vindas, em que algo se perde para que possa ser reencontrado de outro modo. Há alegria e há dor, porque brincar com a ausência é sempre tocar o limite do ser.
Perguntar onde está o sujeito é, talvez, o jogo da psicanálise.
Maria Fernanda,
Psicóloga, CRP-08/46192



